O que aconteceu com aqueles avatares?

Voltei a este blog depois de bastante tempo.

E tem uma coisa curiosa em voltar a um lugar onde a gente escrevia: você não encontra apenas textos antigos. Encontra versões antigas de você mesmo.

A última que deixei por aqui é de janeiro de 2024.

Eu e Marlos estávamos começando uma empresa e eu escrevi, empolgadíssimo, um texto apresentando o novo capítulo das nossas vidas: tolky — Avatares Inteligentes.

A ideia era criar avatares construídos com inteligência artificial que conhecessem pessoas e marcas, conversassem em seu nome, preservassem conhecimento e fossem capazes de realizar algumas tarefas de maneira autônoma.

A gente acreditava que estava começando uma jornada. Nisso, acertamos em cheio.

Só não fazíamos ideia de onde ela ia dar. blema de ter uma boa ideia. Uma boa ideia é perigosa. Principalmente quando é nossa.

A gente se apaixona por ela, começa a enxergar o mundo através dela e, sem perceber, passa a procurar problemas que justifiquem a solução que já encontrou. Aliás, isso é engraçado porque eu já escrevia sobre isso muito antes da Tolky existir.

No fundo, uma solução eficiente para o problema errado continua sendo uma solução errada.

E empreender talvez seja, entre outras coisas, descobrir sucessivamente que o problema não era exatamente aquele que você imaginava.

Foi o que aconteceu conosco. No começo, uma das coisas mais impressionantes na inteligência artificial generativa era a possibilidade de conversar. Uma máquina que entendia o que você dizia e respondia de uma maneira surpreendentemente humana parecia quase mágica.

Criar um avatar era uma forma de dar identidade a essa inteligência.

Nome, Personalidade, Conhecimento, Contexto… E aquilo continua sendo importante. Mas quando colocamos esses avatares para trabalhar no mundo real, começamos a descobrir uma coisa:

fazer uma inteligência artificial conversar era só o começo.

Conversar não é resolver

Imagine que você pergunta a uma inteligência artificial:

— Minha fatura está vencida. Posso pagar sem juros?

Ela pode responder educadamente. Pode conhecer todas as regras da empresa. Pode usar seu nome. Pode escrever impecavelmente. Pode até fazer uma piada.

Mas, em algum momento, ela precisa saber quem você é. Precisa consultar sua fatura. Entender seu contrato. Verificar uma condição no sistema financeiro. Talvez negociar. Registrar o que aconteceu. Atualizar o CRM. Criar um ticket. Chamar uma pessoa, caso a situação ultrapasse aquilo que ela pode decidir. E, se você voltar amanhã, seria interessante não precisar começar tudo de novo.

Foi aí que nossa pergunta começou a mudar.

De: Como criar uma IA capaz de conversar com alguém?

para: Como fazer uma conversa realmente resolver alguma coisa?

Parece uma diferença pequena. Não é.

A Tolky mudou

Aquela ideia de uma rede de avatares foi encontrando empresas, clientes, processos, sistemas legados, regras de negócio, equipes de atendimento, vendedores, gestores, integrações, APIs, bancos de dados e todos aqueles detalhes pouco cinematográficos que aparecem quando uma tecnologia sai da apresentação de PowerPoint e encontra segunda-feira às 8h da manhã.

E a Tolky mudou junto.

Hoje nós a descrevemos como um AI CRM da era conversacional.

Atendimento, CRM, conhecimento, automação, gestão e inteligência passaram a fazer parte de um mesmo ecossistema porque descobrimos que, para uma conversa ter contexto, o contexto não pode estar espalhado por quinze sistemas que não conversam entre si. não desapareceu.

Talvez ele tenha encontrado seu lugar.

Em vez de ser o produto inteiro, tornou-se uma das formas pelas quais pessoas se relacionam com uma inteligência que possui identidade, conhecimento, contexto e capacidade de agir.

E isso exigiu algumas decisões difíceis.

Em outubro de 2025, por exemplo, começamos a reescrever a plataforma praticamente inteira.

Não porque tudo que havíamos construído estivesse errado.

Mas porque aquilo que havíamos aprendido já era maior do que a arquitetura que tínhamos criado para suportá-lo.

É uma sensação estranha jogar fora soluções que você levou tanto tempo para construir.

Mas existe uma diferença importante entre preservar o que você fez e preservar o que você aprendeu fazendo.

O segundo é muito mais valioso. veio um teste interessante

Em 2025, o Conselho Nacional de Justiça lançou sua primeira Contratação Pública de Soluções Inovadoras, uma CPSI.

O desafio envolvia justamente utilizar inteligência artificial e outras tecnologias para melhorar o atendimento dos usuários do Portal de Serviços do Poder Judiciário, o Jus.br.

Foram recebidas 79 propostas.

A Tolky ficou em primeiro lugar na seleção e, depois, assinou contrato com o CNJ para desenvolver e testar a solução. que isso foi uma conquista enorme para uma empresa que tinha começado tão pouco tempo antes.

Mas existe uma parte dessa história que me interessa ainda mais.

O desafio oficial não era:

Como colocar inteligência artificial no Judiciário?

Era melhorar um problema real de atendimento incorporando tecnologia para torná-lo mais integrado, eficiente, acessível e humanizado. onde fomos parar.

Depois de tantos anos discutindo educação, experiência, tecnologia, inovação e relações humanas neste blog, estou construindo inteligência artificial e, de algum jeito, continuo esbarrando na mesma pergunta:

como podemos usar tecnologia sem perder de vista as pessoas para quem ela existe?

Talvez minha trajetória seja menos maluca do que parece.

As versões da gente mesmo

Eu já escrevi aqui uma vez sobre as diferentes versões da gente.

Talvez porque minha vida profissional nunca tenha feito muito sentido quando desenhada como uma linha reta.

Computação.

Audiovisual.

Física.

Educação.

Tecnologia.

Inovação.

Produtos.

Empreendedorismo.

Inteligência artificial.

À primeira vista, parece que eu tenho algum problema sério para escolher uma profissão, rs.

Só que hoje consigo enxergar essas coisas de outro jeito.

Eu não deixei de ser o professor quando comecei a desenvolver produtos.

Não deixei de ser o físico quando fui empreender.

E certamente não abandonei tudo isso porque agora passo boa parte dos meus dias discutindo inteligência artificial, arquitetura de software, clientes, produto e empresa.

O físico ainda quer saber:

isso realmente funciona?

O educador pergunta:

como alguém vai compreender e experimentar isso?

O construtor quer descobrir:

dá para fazer?

E o empreendedor não me deixa esquecer:

mas isso resolve qual problema?

Talvez amadurecer profissionalmente tenha menos a ver com trocar de versão e mais com descobrir como usar todas elas juntas.

A inteligência artificial também cresceu

Quando começamos a Tolky, ainda existia um encantamento enorme simplesmente porque uma IA conseguia fazer coisas que, pouco antes, pareciam impossíveis.

Esse encantamento continua existindo.

Eu ainda me surpreendo quase diariamente.

Mas a pergunta que me interessa hoje é menos:

“Olha o que a IA consegue fazer!”

e mais:

“Agora que ela consegue fazer isso, o que vale a pena fazer com ela?”

São perguntas completamente diferentes.

A primeira é sobre capacidade.

A segunda exige critério.

E talvez critério seja justamente uma das coisas de que mais precisaremos daqui para frente.

Nem tudo que pode ser automatizado precisa ser automatizado.

Nem toda conversa automatizada melhora uma relação.

Nem toda inteligência precisa tomar todas as decisões que é capaz de tomar.

Nem toda tecnologia nova exige que a gente jogue fora aquilo que veio antes.

Às vezes, inovar é justamente compreender melhor o princípio que existe atrás da solução atual.

Dois anos e meio depois

Quando escrevi o último texto deste blog, apresentei a Tolky como o início de uma jornada.

Relendo aquilo agora, percebo que ainda gosto daquela versão.

Ela estava encantada.

Curiosa.

Cheia de hipóteses.

Algumas sobreviveram.

Outras mudaram completamente.

E ainda bem.

Porque talvez o pior destino possível para uma ideia seja permanecer exatamente igual depois de encontrar a realidade.

Hoje a Tolky é uma empresa muito diferente daquela que apresentamos em janeiro de 2024.

O produto mudou.

Os problemas ficaram maiores.

A responsabilidade também.

Mas existe alguma coisa lá atrás que ainda reconheço aqui.

Continuamos interessados em conversas.

Continuamos tentando conectar conhecimento a pessoas.

Continuamos acreditando que tecnologia pode ampliar possibilidades humanas.

E continuamos descobrindo que a parte mais difícil quase nunca é a tecnologia.

São as escolhas que fazemos com ela.

Talvez aqueles avatares não tenham desaparecido.

Talvez nós apenas tenhamos descoberto que a pergunta era muito maior.

E, pensando bem, acho que este blog sempre foi sobre isso.

Sobre aprender.

Experimentar.

Mudar de ideia.

Guardar aquilo que descobrimos pelo caminho.

E seguir fazendo perguntas um pouco melhores.

Então acho que está na hora de voltar a escrever.

Tem muita coisa para conversar.

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