(Para a irmã!)
Ela foi a última flor do Lácio. Chegou com sementes de cachos dourados na cabeça e rodeada de adultos. A menina-semente se faz da união de duas famílias que lhe entregam legados ancestrais. Força, energia e lutas já estavam no vocabulário comportamental dela desde cedo.

Se ao diamante bruto se oferece a água e abrasão para o polimento perfeito, aos cachos dourados a vida ofereceu lutas diversas e muitas tempestades. Seguindo o ritmo pendular das leis do universo, seu padrão de vida oscilou entre os vôs rasos e a dureza do chão árido. Entre a volúpia e a escassez, ela se fez flor em todas as rachaduras de onde a terra pudesse ver o Sol. Feito o coqueiro que não se intimida com os ventos que limpam a praia, essa menina resistiu bravamente aos golpes da vida.
No mundo em que impera a ansiedade e explosão, ela passou a maior parte do tempo como brisa, e aprendeu a se alimentar de cada raio de Sol para não sentir as faltas e os silêncios mais do que lhe convinha à saúde mental. Com os ursos aprendeu a hibernar, e sua vida foi cheia de esperas longas e reticentes. Com os ancestrais chineses aprendeu que a espera em correta atitude pode ter efeito mais poderoso sobre os desdobrares da vida que batalhas com 10 leões. E sua espera sempre teve a pureza da bondade de intenção, mesmo que incompreendida pelos que nos flancos recolhem seus louros.
Para sobreviver em mares bravios, ela aprendeu a recolher os remos em tempos difíceis. Olhares desatentos poderiam julgá-la descomprometida com o seu destino, mas ela sabia que a remada na hora certa só traria frustação. E foi em cada calmaria que ela foi desenhando seu destino a pesar de todas as tempestades.
Apaixonada pelo esporte e pela saúde, ela aprendeu que educar os corpos e as mentes poderia ser um caminho para a cura do mundo, mesmo que dela só fosse autora de pequena parte. E no caminho do “ensinar” o mar foi se abrindo para seu desabrochar.

Ela é dona dos sorrisos arreganhados nas fotos douradas que protagoniza. Curiosos devem se perguntar que aplicativo de câmera é esse que conta uma piada durante a contagem regressiva da selfie.
A gente sabe que o mar vai ser sempre mar, e que as tempestade serão sempre noites em pleno dia nos oceanos abertos… Mas aos olhos de quem já sobreviveu às torrentes, o respeito cresce enquanto o medo diminui. E os tempos de recolher os remos parecem passado…
Agora o diamante bruto é joia reluzente.
Uma pedra de diamante é bela e nobre desde que a natureza a funde brutalmente em seu ventre. Ela não precisa ser amada e desejada para verter todo o seu esplendor. Os minerais são plenos e absolutamente completos nas profundezas onde se fundem. O ser humano apaixonado escava a montanha e rompe a pedra em busca do mineral perfeito… Não é o homem quem resgata o cristal nas intrincadas minas, mas o cristal que seduz e salva o homem de sua ânsia de se aproximar da beleza. A terra empresta ao homem a lembrança de que o belo não pode ser concebido, e que precisa ser sentido em silêncio na contemplação.
E havia aquele que atravessou mares para buscar nossa pedra não mais bruta… É tempo de um novo despertar!
Entre cavalgadas e remadas, pulando ondas e atravessando correntes, o príncipe das argolas auriculares chega para buscar nosso cristal de faces reluzentes. Ele é um príncipe sem reino e ela uma princesa que não precisa ser resgatada. Não há mulheres indefesas nem homens omnipotentes. Há apenas sujeitos dessa experiência transcendental em que o amor romântico se ancora. Nem mulher frágil, nem homem poderoso. Pessoas únicas que decidiram caminhar juntas pelos temporais e auroras.
Nesse amor que brota de um mundo em que o patriarcado não deve sobreviver, o feminino que há nele saúda o feminino que há nela, e do equilíbrio dessas polaridades que dançam por milênios surge o pilar que de agora em diante será o porto.
Vocês estão construindo um farol que está preso nas rochas lembrando SEMPRE de onde vocês partem nessa viagem. O farol é fixo, mas sua luz se expande mar adentro. Navegar é preciso!
Em busca da cura das mazelas do amor romântico eles se permitem a emoção de amar, mas não se iludem. Amor não é ferramenta de transcendência e felicidade por si só. Dar as mãos em uma caminhada é um pacto de crescimento junto, e não uma retroação ao corpo único! Lembremo-nos sempre disso!
Cada um caminha com suas próprias pernas e navega em seu próprio barco. Em comum, a luz do Farol que construíram juntos e que deve sempre lembrar de onde vieram. Entidades únicas e ricas, cada um terá uma longa estrada de evolução íntima, e será para o outro o porto, o aconchego, a intimidade.
Ele, cavaleiro das argolas auriculares, que atravessa mares atrás da beleza única que não pode ser concebida senão pelos sentidos vivos e atentos em sinestésica poesia. Ela, diamante forjado sob a pressão do ventre da mãe terra, que da abrasão se fez luz e reluz.
Seguirão juntos, porém indivíduos. O príncipe deixa de lado a pomposa coroa e a princesa se desfaz da manta casta da dita feminilidade frágil. Não há mais lugar para os jogos de sedução onde o íntimo se ancora nu. É tempo de se olhar de verdade.
Aos olhos do outro, é preciso que se deite o SER original, aquele que tem a beleza do universo toda em cada célula do corpo. Não existe nada mais incrivelmente completo que o SER desnudo dos paradigmas de beleza e sedução da mente rasa. Sejam para o outro o único olhar que reflete a VERDADEIRA beleza de cada um.
Às demais distrações da beleza terrena, que seja dada atenção limitada e devida, porque vida é experiência e o belo foi criado para se expandir. Mas que ao final do dia, sempre conectados, os votos de parceria e amor se reforcem, como se olhassem para a luz do Farol que estará sempre ali para guiar essa linda viagem.
Ao se olharem nos olhos do outro, é preciso que esteja ali algo mais belo do que o espelho pode refletir. Porque o espelho traz o esplendor e a beleza que a luz revela em nossa face, mas os olhos do parceiro trazem a beleza da experiência de alma que existe quando se fazem presentes, e isso não se pode perceber sem o outro. Sejam, portanto, o espelho vivo que reflete a alma em flor.
Hoje estamos aqui em festa de choro e alegria. Já que toda escolha é uma renúncia, todo esplendor em luz também é sombra. O sábio ensina que as árvores mais altas e frondosas têm as raízes mais profundas. Hoje celebramos um renascimento e também mortes. Celebramos o início de um ciclo e o fim de muitos outros.
Hoje é dia de abrirem os portões para novos campos e cerrar as porteiras das estradas às quais renunciam. É a alegria do nascimento e a dor do ventre vazio partilhando o mesmo altar. Somos todos testemunhas e guardiões desse porto que se edifica nesse altar, e seremos também guardiões desse farol… que ele nunca se apague e que possa ser SEMPRE a lembrança do que os uniu. Que o amor nutra todas as curas necessárias para que essa chama seja infinita enquanto dure.
Que assim seja!
Esse texto me arrepia toda vez que leio. Não tem como não se emocionar ao lembrar do que foi o casamento. Obrigada por esta obra. 🙏🏻🤍