Um poeta que não escreveu versos em punho por que soube fazer da vida o seu texto. Talento demais em um corpo por demais criança. De tão afeito aos ventos que trazem aromas do estrangeiro, essa criatura se fez mais ao Céu do que à terra. E de tanto voar, quase se perdeu de seu porto. Mas foi em cada vôo que ele se fez mais senhor dos alentos e paixões. Referência para quem, de longe, o viu se lançar nas alturas, ele sempre brilhou por seu talento. “Aquele que pinta com luz” foi tão venerado por anônimos que quase se esqueceu de seus silenciosos fãs mirins. Mesmo assim, talvez por que do alto se inspirasse nos anjos, sua imensa bondade sempre foi um norte moral silencioso.

E por que sempre esteve mais para o éter do que para a rocha, nunca foi tão afeito às coisas da terra. Desapegado até demais, ele soube ser o exemplo vivo de que uma boa música vale mais do que uma jóia, e frequentemente, em suas escolhas, trocou mundos e fundos pela poesia.
Expressão embrutecida da paz, sua alma abstinha-se dos flancos até quando a guerra era essencial à harmonia dos conflitos… E de sua quietude angustiada se fez o vício.

Se todo o mal do mundo fosse cometido pelos que, abstendo-se de lutar, provocassem a guerra, teríamos um mundo feito de mazelas de amor. Mas a Física é chamada ao equilíbrio, e da atração dos opostos veio o que o destino reservava para uma alma por demais quieta. Deus quis nascer também em cada mulher astuta e cheia de atitude que reinou à sua volta e em seu inconsciente. A sede de luta que tanto lhe faltava abundava em cada uma dessas que de tanto amor encheram-lhe o coração de urgências diversas, movendo-lhe o esqueleto quando clamava-lhe o sono indolente. Sem cada uma delas, o vento certamente o teria levado nessas idas e vindas dos aromas espargidos aqui e acolá.

Hoje, mais de 6 décadas ancorado a meia altura dessa Terra tão dura, esse diplomata das galáxias sinaliza sua sabedoria nos cabelos brancos. Mas o bom observador não deixará escapar-lhe os olhos puros. Todos esses anos de maldade do mundo não foram capazes de roubar-lhe a pureza.
Que os próximos muitos anos tragam a esse homem a coragem de pousar aqui na terra para sentir de perto os seus. E que seu imenso sofrimento colhido de cada ser que cruzou seu caminho possa voar para o alto feito balão de um gás nada nobre, deixando seu coração voado descer à terra leve mas firme. E que, assim, liberto de tanto sofrimento, possa sentir-se pela primeira vez “ele mesmo”, sem o escudo ópio que ora lhe serve de véu maya.
Todo amor aos que verdadeiramente amam.
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